JUVENTUDE E CULTURA
Não é possível refletir sobre o jovem isolando-o da sociedade em que está inserido. As relações sociais existentes na sociedade imprimem as suas marcas culturais as quais definirãocomo o perfil do adolescente irá se configurar resultando daí a base para a vida adulta.
Vários autores alertam que existem diferentes juventudes, a depender da situação, vivências, referências subjetivas e grupais e identidades sociais. Para Bourdieu (1984,
apud Castro e Abramovay, 2005, p. 58) o conceito de juventude é construído socialmente, não se podendo falar do jovem como se ele fosse uma unidade social, um grupo constituído com interesses comuns.
Castro e Abramovay (2005, p. 58) salientam que o conceito de juventude é, em principio provisório. Geralmente se refere ao corte de 15 a 24 ou de 15 a 19 anos (conceito demográfico com aportes de psicologia, da antropologia e da sociologia). Mas o que proporcionará uma maior compreensão da multiplicidade do real é o aprofundamento da análise e a compreensão sobre significados, construções simbólicas, relações sociais estabelecidas pelos jovens, identidades elaboradas com base em gênero, estrato socioeconômico, raça e etnicidade, entre outras referências.
O reconhecimento de que existem juventudes possibilita uma discussão sobre as representações sociais a respeito dos jovens na contemporaneidade. É preciso admitir que há diferentes formas de considerar os jovens, como há diferentes maneiras de eles se afirmarem como sujeitos, levando em conta, inclusive, diferentes organizações sociais de referência, a exemplo da escola, a família, o Estado e a mídia.
Conforme Saito (s.d.), a adolescência é um período extremamente relevante para a construção do sujeito individual e social, devendo ser, porém, considerada sua vulnerabilidade e risco. Segundo essa mesma autora, "a adolescência é praticamente única, singular para cada um" o que a diferencia da puberdade, fenômeno que ocorre com muita semelhança em todos os indivíduos. Geralmente essa singularidade não é levada em conta quando se depara, principalmente, com aqueles jovens considerados problemáticos no seu grupo social. A depender da história de vida e dos hábitos culturais adquiridos, cada jovem se vê como ser único e irá reagir de maneira diferenciada de outros da mesma idade frente aos desafios e acerca das cobranças dos adultos.
"Quando somos jovens estamos na fase que acabamos de ser crianças, ainda estamos acostumados com a confiança da família (...) passamos a enfrentar muita crítica pelos nossos atos, como por exemplo, o modo de falar (...),o comportamento, a falta de experiência." (I., estudante da 2ª série / Ens. Médio, do Col. Est. Kleber P. de Oliveira)
"É uma fase também um pouco complicada porque a gente passa de um mundo da infância, que é uma fase sem responsabilidades, e passamos para a juventude, uma fase de muitas responsabilidades, e dessas responsabilidades vem os erros e acertos da vida. Mas eu acredito que é nesses erros e acertos que nós aprendemos a viver". (J.C. , idem)
A relação dos jovens com a sociedade pós-moderna se dá de modo um tanto conflituoso uma vez que prevalecem os estereótipos destes como incapazes, rebeldes e, muitas vezes, irresponsáveis. Mas, se de um lado, eles aparecem como seres problemáticos que transitam entre a infância e a vida adulta; por outro, transformaram-se num"objeto de desejo" da indústria cultural. É um processo que se fortaleceu a partir da década de 1990, quando as empresas responsáveis pelas pesquisas de mercado saíram "à caça" das tendências de consumo. Fontenele, 2004, p. 63) afirma que essas empresas tentam fazer uma mediação mais direta entre uma forma de expressão cultural – especialmente da cultura jovem – e uma prática de consumo. Em outras palavras, transformar cultura em mercadoria. Desse modo, os jovens passam a ser considerados os "nichos" do mercado, pois inspiram tendências para as quaiseles mesmos serão os consumidores.
A análise de Rassial nos ajuda a compreender o lugar privilegiado do adolescente como consumidor, em
todas as classes sociais. Caros ou baratos, vendidos em
shoppings ou em camelôs, os acessórios compõem a mascarada adolescente, funcionando como objetos transicionais que ajudam na difícil tarefa de reinscrever esse novo corpo, estranho até para o próprio sujeito, nesse lugar entre a infância e a vida adulta que ele passa a habitar. (Kehl, s.d., p. 95)
Essa relação com o mercado consumidor se dá paralelamente a uma outra. Como o conceito de juventude se tornou, segundo Kehl (s.d., p.89), "bem elástico: dos 18 aos 40, todos os adultos são jovens", esses mesmos adolescentes servem, ainda, de modelos para os adultos que querem retardar o envelhecimento. Estes, nas últimas décadas, passaram a consumir o mesmo vestuário e adereços daqueles e ainda adotaram idênticos estilos e linguagem. No desejo de continuarem jovens, se comportam como tais e são incapazes de exercer o papel de autoridade e impor limites. Tal comportamento dos adultos traz uma lacuna no referencial do mundo adulto, tãoimportante para servir de parâmetro para a vida dos adolescentes. Segundo Caniato e Cesnik (2005),
Esses (adultos) ao abandonarem seus lugares de autoridade, deixam os jovens com suporte afetivo e identificatório frágeis e, conseqüentemente, a demarcação de referenciais, parâmetros e limites necessários à construção da subjetividade e identidade dos adolescentes é precariamente estabelecida.
Havendo tal carência para uma sólida formação dos adolescentes, como a sociedade adulta poderá lhes cobrar valores não transmitidos? Pode-se esperar que os futuros adultos, devido ao hiato existente na passagem da sua juventude para a maturidade, demonstrem instabilidade ao se depararem com situações adversas, sendo mais fáceis de se exporem aos vícios e às más companhias, como se constata no trecho a seguir.
"O lado ruim de ser jovem é que às vezes por não ter uma base familiar muito forte, torna-se uma jovem muito fácil de se manipular, uma pessoa que pode fazer maus amigos e entrar no mundo do crime e das drogas(...) uma base familiar forte e unida é muito importante nos dias de hoje". (G., estudante da 2ª série / Ens. Médio, do Col. Est. Kleber P. de Oliveira)
Vê-se a importância, portanto, de a família, a escola e demais organismos sociais lançarem aos jovens um olhar diferenciado, ouvindo-os e dando-lhes a oportunidade de atuarem como sujeitos nas diversas instâncias da sociedade. Eles formam uma grande parcela da população do país e são responsáveis por pressionar a economia para a criação de novos postos de trabalho. Como não logramda especial atenção por parte daqueles grupos citados acima e dos responsáveis diretospelo planejamento nacional, ficam expostos às situações conflitantes e desintegradoras da personalidade e também às mais elevadas taxas de mortalidades por causas externas.Um pouco desse assunto será discutido a seguir. No site.
Postado por Rogério do PT...